
O último filme com a grife Spielberg é um honestíssimo acompanhamento para uma boa pipoca. Quem torcer o nariz, sinceramente, está com má vontade. Quando o chão começa a rachar sob os pés do Tom Cruise sentimos aquela gostosa sensação de estarmos diante de um filme B da melhor estirpe (e não há mal nenhum nisso). A sequência de imagens inicial que funde a gotícula de água com protozoários ao planeta Terra e a um semáforo é um exemplo de síntese que só mesmo um grande cineasta conseguiria fazer.
Além disso, Spielberg parece se divertir fazendo inúmeras citações conscientes a seus filmes anteriores (Contatos Imediatos, Minority Report, Jurassic Park, ET).
Mas desconfio que, em alguns momentos, o seu inconsciente também se manifeste de forma eloqüente. Por exemplo, fica difícil não traçar um paralelo entre as cenas em que as multidões humanas caminham com horror e desalento rumo a um destino fatal aparentemente sem saída e injustificável com as imagens dos judeus rumo aos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.
Nas palavras de um personagem: "não se trata de uma guerra, mas sim de um mero extermínio".
Muita gente prefere a metáfora mais atual do terrorismo transcontinental do século 21 e do Choque de Civilizações previsto por Samuel Huntington. De qualquer modo, é importante lembrar que a história original saiu da cabeça de um autor impregnado pela novidade darwinista do final do século 19. Mas estas transposições temporais -- e geográficas --já funcionaram bem no cinema antes (vide o Apocalypse Now do Coppola que atualiza para o Vietnã norte-americano a crítica ao imperialismo pensada por Conrad para a África negra britânica). Ou seja: o horror humano é atemporal. E, para nossa sorte, a diversão de exorcizar esse mesmo horror no escuro conforto do cinema, também.